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Plano Real completa 23 anos; Moeda encerrou a hiperinflação


Dia 1º de julho de 1994. Hoje faz exatos 23 anos que o Plano Real foi implantado no Brasil com a árdua missão de estabilizar a inflação, que chegou a atingir impressionantes 2.700% em 1993, de acordo com o índice de preços da FGV. Economistas divergem quanto à resposta da pergunta “o plano real deu certo?”, principalmente por causa da inflação – eterna vilã – porém apontam que a moeda não só deu certo, como tem boa aceitação entre os brasileiros.

O ex-ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, que atuou na pasta no período de hiperinflação no governo Sarney, afirmou que, a rigor, a crise atual não tem interferido nas cotações do Real. “A cada notícia de impacto em torno da crise pode-se assistir a momentânea volatilidade, mas nada preocupante. Isso porque não há risco de crise cambial e, portanto, de medidas para controle das remessas de divisas. O investidor sabe que pode sair a qualquer momento, remetendo seus recursos para o exterior. Assim, não existe clima para ataque especulativo contra a moeda do país.

Uma antiga teoria da Economia – também cercada por controvérsias – relaciona a oferta de moeda e a inflação. De acordo com o professor de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Alysson Cabral, a teoria é bastante aceita em todo o mundo e diz que quanto mais oferta de moeda, ou menor a taxa de juros, os preços sobem, ou seja, aumenta a inflação. “Qual a melhor medida de oferta de moeda? Seria o aumento na oferta de moeda que provocaria aumento de preços ou o aumento de preços provocaria o aumento da oferta de moeda? A oferta é exógena, ou seja, controlada pelo banco central, ou endógena, sendo assim definida pela própria economia? Essa relação, embora questionada,  ainda é a base teórica utilizada para se fazer política monetária no mundo inteiro”, disse.

Um dos questionadores desse modelo teórico é um dos formuladores do Plano Real, André Lara Resende, que, recentemente, declarou que a insistência em juros altos é contrária à realidade. Dessa forma, o economista, que lançou neste ano o livro “Juros, Moeda e Ortodoxia”, tem sido alvo de crítica de economistas mais ortodoxos, já que em sua obra defende que os juros nominais podem ser considerados como indicadores importantes da inflação.

Contexto de 1993 X contexto de 2017

Embora o Brasil tivesse passado por um impeachment quanto o Plano Real foi implantado, as semelhanças com o atual momento político do país param por aí. “A situação atual é muito melhor do que a vivida pelo país em crises anteriores, tanto as do final do governo Sarney quanto aquelas que aconteceram nos primeiros anos do Plano Real. O país é credor internacional líquido, ou seja, tem reservas superiores à dívida externa, venceu a hiperinflação, privatizou os bancos estaduais problemáticos e as maiores empresas estatais do setor industrial e de serviços, restando apenas a Petrobrás e os bancos federais. A economia é mais aberta, as instituições se fortaleceram e a sociedade ficou mais madura. É também melhor do que no recente impeachment da presidente Dilma, pois a percepção é a de que sua desastrosa gestão econômica, que tantos males causou ao país, não tem retorno no atual momento”, argumentou o economista Mailson da Nóbrega.

O professor da UFPB, Alysson Cabral, concorda que a situação atual é melhor. “A situação é bem diferente. Hoje, do ponto de vista das contas externas, estamos em situação muito melhor que em 1994. Na época, tínhamos um volume de reservas internacionais muito menor que hoje e essas reservas eram fruto da atração de capital especulativo, com taxas de juros que chegaram a 45% ao ano, enquanto as reservas atuais se devem ao boom das commodities que ocorreu no início do século e aos investimentos diretos estrangeiros. A taxa Selic hoje está em 10,25% ao ano”, argumentou o professor da UFPB. Deu certo? Para Nóbrega, o Plano Real deu certo.

“Primeiro porque permitiu por um fim à hiperinflação. Segundo porque a estabilidade permitiu que o governo e o país aplicassem suas energias na solução de problemas estruturais que limitavam o crescimento. Claro, novas dificuldades surgiram, particularmente depois dos anos do PT: o sistema tributário piorou, a legislação trabalhista aumentou o seu arcaísmo e a infraestrutura se deteriorou. São problemas a serem enfrentados em próximas administrações do país, com a vantagem de que no período Temer reformas importantes foram realizadas e outras encaminhadas, como a trabalhista e a previdenciária”, explicou.

Já o professor da UFPB afirmou que, para dizer se o Plano Real deu certo, é preciso analisar como ele foi inicialmente concebido. Havia a previsão de ajuste fiscal permanente para que o plano fosse bem sucedido. “O que até hoje não aconteceu. Também estava baseado no controle da base monetária (âncora monetária), o que logo no primeiro trimestre de implantação, mostrou-se inviável. A estabilidade só conseguiu ser alcançada com o controle rigoroso da taxa de câmbio e a abertura da economia. Assim, graças ao dólar barato e a facilidade de comprar produtos importados, os preços no Brasil se estabilizaram”, explicou o professor Alysson Cabral.

O preço da estabilização dos preços no Brasil foi o forte déficit nas contas externas, o que obrigou o país a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI), além das taxas de juros elevadas para atrair o capital estrangeiro. “(Isso) provocou aumento das despesas do governo com juros, aumentando a dívida pública, falência e desnacionalização de muitas empresas brasileiras, além de desemprego elevado. Essa situação só foi contornada a partir de 2003, com o boom das commodities, ou seja, o aumento da demanda e dos preços de produtos exportados pelo Brasil, puxado pelo expressivo crescimento da economia chinesa. Contudo, ficamos ‘presos’ ao câmbio”, afirmou.

Por fim, o professor da UFPB esclareceu que toda vez que se tenta corrigir a taxa de câmbio no Brasil, a inflação sobe. “A correção da taxa de câmbio é importante para recuperar a indústria brasileira, que perde competitividade com essa taxa tão baixa porque os produtos fabricados no Brasil ficam caros no exterior. Por outro lado, permite que os produtos importados baratos continuem sendo a principal âncora para manter a inflação baixa no Brasil”, argumentou.





Correio da Paraíba.

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