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Os juros e o jogo da incerteza


Com mais um corte de juros, desta vez de 10,25% para 9,25%, o Banco Central (BC) continua fazendo sua parte no esforço para reativar a economia, criar empregos e, ao mesmo tempo, reduzir o peso da dívida pública. Novos cortes poderão ocorrer, mas falta saber se consumidores, empresários e investidores sentirão segurança para movimentar com mais vigor os negócios. Por enquanto, a queda de confiança gerada pela crise política teve efeitos limitados, nem inflacionários nem desinflacionários, segundo nota do Comitê de Política Monetária (Copom), formado por diretores do BC. Talvez haja uma pitada de otimismo nessa avaliação, divulgada logo depois da reunião de quarta-feira passada. As pressões inflacionárias parecem continuar moderadas, apesar da piora de humor – tanto de compradores como de vendedores – detectada em várias sondagens desde junho. Mas faltam dados, ainda, para dizer se a mudança de expectativas interferiu, e quanto, nas atividades industriais e comerciais.

Mesmo o aparente otimismo dos membros do Copom é contrabalançado com sinais de cautela. As palavras “aumento da incerteza” aparecem três vezes no comunicado – no primeiro, no terceiro e no oitavo dos nove parágrafos.

Não há referência explícita, no texto, à crise iniciada em maio com a denúncia dos irmãos Batista, criminosos confessos e controladores do Grupo J&F, contra o presidente da República. Só se menciona um “aumento da incerteza quanto ao ritmo de implementação de reformas e ajustes na economia”. Mas é evidente o vínculo entre o jogo político e a insegurança quanto à execução do programa de governo. A expressão “queda de confiança” também é usada no comunicado.

Por enquanto, o Copom mantém a projeção de uma tendência favorável dos preços, com inflação em torno de 3,6% em 2017 e de 4,3% em 2018, com base nas trajetórias de juros e de câmbio apontadas na pesquisa Focus, conduzida semanalmente no mercado. A mesma pesquisa indica inflação de 4,25% em 2019 – coincidindo exatamente, portanto, com a nova meta fixada, recentemente, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

A nota reitera, no entanto, a importância do processo de reformas e ajustes “para a queda das estimativas da taxa de juros estrutural”. Essa taxa vale como um limite para a política monetária. Levar os juros básicos a um nível inferior à taxa estrutural comprometeria o esforço de controle da inflação. Este detalhe é especialmente importante. Indica a pouca disposição dos membros do Copom, especialmente de seu presidente, Ilan Goldfajn, de baixar os juros de forma voluntarista.

Uma política desse tipo foi aplicada entre o dia 31 de agosto de 2011, quando a Selic passou de 12,50% para 12% ao ano, e meados de abril de 2013. A inflação disparou nesse período e a credibilidade do BC desmoronou. Em 17 de abril de 2013 a taxa básica foi finalmente elevada de 7,25% para 7,50% e depois a alta continuou até o nível de 14,25%, atingido no fim de julho de 2015, no começo do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

Ao insistir na importância dos ajustes e reformas, o Copom reafirmou o risco econômico embutido na crise política. Os efeitos da crise podem ter sido limitados, até agora, mas seria irrealista apostar num efetivo descolamento entre a economia e o jogo político.

A decisão do Copom foi anunciada pouco depois das 18 horas de quarta-feira. No meio da tarde o Tesouro havia divulgado as contas do governo central, com os números de junho e do primeiro semestre. O déficit primário (sem juros) acumulado na primeira metade do ano chegou a R$ 56,1 bilhões, um recorde sinistro. Chegar a dezembro com um déficit primário no limite de R$ 139 bilhões, meta fixada para o setor federal, continua sendo um desafio formidável. Se for vencido, a continuação do programa ainda dependerá de apertos e reformas até agora incertos.

Pelo menos um dado positivo foi confirmado ontem. O BC informou que o saldo das operações de crédito aumentou 0,4% em junho e atingiu R$ 3,08 trilhões. Mas ainda houve um recuo de 1,6% em 12 meses. O caminho da recuperação é longo e por enquanto enevoado.





Fonte:  Editorial | O Estado de S. Paulo

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