Grato por sua visita!

O Príncipe e Mandrágora de Maquiavel e a capacidade de enganar-se

No primeiro debate do Café Filosófico CPFL sobre “Os clássicos e o cotidiano”, o historiador da Unicamp José Alves de Freitas Neto analisou a obra de Maquiavel a partir dos dilemas da atualidade

Por José Alves de Freitas Neto
“Na vida pública e privada, aceitamos que as leis sejam burladas por nós e pelos outros”

“As pessoas têm medo dos clássicos. Nosso desafio é instigar o leitor a encará-los a partir de questões contemporâneas”, afirmou o historiador da Unicamp José Alves de Fretas Neto, curador da série “Os clássicos e o cotidiano” do Café Filosófico CPFL.

O tema do encontro, realizado na sexta-feira, 06/03/15, foi “Maquiavel e o desencanto com a política”. A primeira ferramenta para encarar o autor de O Príncipe e A Mandrágora foi desmistificar o termo “maquiavélico”, (mal) compreendido como adjetivo para soluções drásticas em benefício de interesses pessoais. “Se os homens fossem bons, tudo o que eu digo seria mal, escreveu Maquiavel”, lembrou o curador. “Em sua linguagem política, ele apresenta as fronteiras da ética. Fala da natureza do governante e do governado.”

Segundo o autor, é fácil falar das virtudes que se deve ter no cotidiano. “Difícil é operacionalizá-las nas circunstâncias concretas. Mais do que a força física, é a força da legitimidade de quem exerce o poder o tema de Maquiavel”. Partindo deste ponto, José Alves questionou a origem da legitimidade da prática governamental. Para ele, o autor de O Príncipe compreendia as relações humanas como a construção das expectativas de uma parte a outra. “O que não se cumpre é engano.”

Para Maquiavel, a política é o jogo da aparência. É a busca pela glória. Para atingi-la, é preciso conhecer os anseios da população em suas diferentes perspectivas histórias. “É preciso subir ao monte pra conhecer a planície , e percorrer a planície para conhecer o monte. O povo conhece melhor o governante do que o governante. O mais difícil não é a conquista do poder. É a manutenção do poder.”

Segundo o palestrante, quando a má-fama se abate sobre o governo, é difícil reverter a impopularidade e atingir a glória. “A moral cristã diz: seja generoso e pacífico. Mas o governante não será eficiente se gastar economias ou fugir do conflito. Maquiavel quebra a tradição cristã e evita generalizar. Cada decisão deve ser avaliada sob suas circunstâncias. O tempo é superior à vontade.” O apoio ou não ao governante decorre, assim, das relações entre força e desejo. “As pessoas projetam no governante a capacidade de construir sonhos. O príncipe é um simulador de si mesmo. Ele tem de produzir e deve comunicar-se com o imaginário de uma época.”

Ainda assim, não adianta não querer brigar: as pessoas vão brigar com o governante. “É preciso jogar com as aparências. O governante precisa saber que não existe apoio incondicional. A eles Maquiavel diz: entre os grandes e o povo, prefira o povo. Mas eles mudam. Os aliados hoje pedem um cargo, amanhã querem dois. Maquiavel diz: o que eles querem é o lugar que você ocupa. Por isso é um equívoco fazer aliança com alguém mais forte do que você.”

José Alves lembrou também que, para Maquiavel, ao príncipe é preferível ser temido a ser amado. “Só não pode ser odiado.” Ainda assim, quando a maldade beneficia toda a população, ela se torna uma necessidade. Por isso a ideia de ética é oscilante. “Para Maquiavel, é a ingenuidade em relação ao discurso político que nos faz sermos passados pra trás.” Essa oscilação foi exemplificada com um resumo da peça A Mandrágora, na qual pequenas transgressões à ordem socialmente aceita são cometidas e perdoadas a partir de interesses pessoais. “A única coisa que não acaba bem na história é a moral.”

“As regras de uma sociedade são um obstáculo em A Mandrágora e O Príncipe, mas não são intransponíveis”, completou. “O engano produz deleite. Na vida pública e privada, aceitamos que as leis sejam burladas por nós e pelos outros, embora nós as defendamos.”

José Alves salientou, no entanto, que Maquiavel jamais defendeu o “vale-tudo”. “Ele nos traz um exercício de abalar as nossas convicções. Para ele, é melhor refletir e fazer escolhas do que só obedecer.”

Segundo José Alves, a atualidade da obra ecoa nos dias atuais. “Os políticos brasileiros conhecem bem Maquiavel. Os governantes ainda estão tateando para descobrir quais os limites do novo modelo que a sociedade se desenha.Maquiavel continua a ser relido porque nos dá armas diferentes para responder aos problemas atuais. A obra é a mesma, mas a leitura da obra muda.”

“Hoje não estamos nem no paraíso nem no inferno. A propaganda do governo tem uma função, mas não vence sozinha. Em política, precisamos sempre nos questionar sobre o grau de engano que estamos dispostos a aceitar”, encerrou.








Fonte: Instituto CPFL





Nenhum comentário

Aviso: Os comentários serão moderados...

Tecnologia do Blogger.