Será que nem após a chanchada no TSE nos cairá a ficha de quem é o verdadeiro inimigo?!


O vencedor: Gilmar Mendes. Com muita cotovelada, chute
 na virilha e dedo no olho...
Michel Temer manteve a Presidência da República, tendo sobrevivido a uma das mais estapafúrdias e destrambelhadas tramoias da política brasileira em todos os tempos.

Espera-se que, agora, a sociedade apresente a conta aos conspiradores trapalhões, por terem virado o País de pernas pro ar a troco de nada, prolongando por mais alguns meses a agonia em que se debatem os brasileiros desde 2015, quando se iniciou a fase mais aguda da recessão atual.

E que os esquerdistas sinceros ponham a mão na consciência e decidam se o que querem é apenas contribuir para que o povo brasileiro seja mantido na ilusão de que o capitalismo e a democracia burguesa funcionam, bastando se colocarem corruptos na cadeia e impedi-los de disputar eleições para a classe operária chegar ao paraíso. Quem conhece um pouco de História sabe muito bem que esta solução simplista continuará tendo o mesmíssimo resultado das tantas e tantas tentativas semelhantes já efetuadas, com a cruzada moralista um dia findando e a corrupção voltando revigorada. Da esquerda se espera que tenha a coragem política e moral de abrir os olhos dos eternos iludidos.

Agora, p. ex., o Governo Temer está sendo rejeitadíssimo porque se disseminou a falácia de que ele seria o grande responsável pela imposição das reformas trabalhista e previdenciária aos brasileiros, como se não fosse exatamente isto que pretendeu Dilma Rousseff ao entregar a condução da política econômica, no seu segundo mandato, ao neoliberal Joaquim Levy. O pecado de Temer, portanto, é outro: estar conseguindo atender às exigências dos poderosos, enquanto Dilma fracassou nesta tarefa, embora tentasse com afinco.

É o que o veterano jornalista Clóvis Rossi esclareceu num artigo irrespondível:
"A agenda que Temer tenta levar adiante é a agenda obrigatória para quem o substituir, em eleição direta ou indireta, agora ou em 2018.

O teto de gastos e as reformas trabalhista e previdenciária foram impostas por uma coligação informal entre os agentes de mercado e os partidos políticos à direita do centro.

Desafiá-la levaria ao mesmo problema enfrentado por Luiz Inácio Lula da Silva na campanha de 2002.

Ele teve que render-se à pressão dos mercados – que forçaram a alta do dólar e pressionaram a inflação – sob pena de ter seu governo desestabilizado já na partida".

Seria muito simples se bastasse retirarmos o bode Temer da sala para resolvermos o impasse entre o que os poderosos querem e o que o povo quer. Mas, na vida real, isto levaria apenas à posse de outro bode, que incumbiria seu ministro da Fazenda de levar adiante a obra de Joaquim Levy e Henrique Meirelles, até que aquilo que os poderosos querem fosse socado goela dos brasileiros adentro.

O verdadeiro inimigo é o poder econômico. E a esquerda trai sua missão e sua razão de ser ao fingir acreditar que as necessidades dos explorados possam vir a ser atendidas sob o capitalismo, qualquer que seja o presidente da República.

Muito barulho por nada

O processo na Justiça Eleitoral não passava de um Plano B, uma garantia adicional de que Dilma Rousseff seria privada do seu mandato presidencial, mesmo que ocorresse algum acidente de percurso com o impeachment.

Como o Plano A resolveu a questão, o B perdeu sua razão de ser, reduzido a um estorvo; mas, noblesse oblige,  era necessário manter em pé as ilusões jurídicas da democracia burguesa. Assim, não havendo mais como evitar a realização do julgamento, ele deveria terminar com a absolvição da chapa Dilma-Temer.

Ao iniciar-se a terceira semana de maio, já se sabia até qual seria o placar da absolvição: 5x2. De repente, no dia 17, o jornal O Globo desencadeou uma verdadeira blitzkrieg contra Temer, publicando peças da delação premiada do Grupo J&F que deveriam estar sob sigilo de Justiça.

As regalias do Joesley colocaram
em xeque as delações 
E o relator dos processos ligados à Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, fez o inusitado: como parte do material havia supostamente vazado, resolveu levantar o sigilo do todo. Agiu como um general que, informado de que o inimigo matara 20 dos seus comandados e 80 estavam feridos, ordenasse: bom, então vamos matar logo os outros 80 também...

O pandemônio se instalou no noticiário, nos mercados e nos partidos políticos, enquanto movimentos sociais ligados ao petismo providenciaram um badernaço em Brasília, culminando no incêndio de Ministérios. A impressão de caos e descontrole era fundamental para forçar Temer a uma renúncia imediata. Tal ocorrendo, a guerra relâmpago teria sido coroada de êxito.

Mas, Temer resistiu. O grande capital, para o qual o importante mesmo é a continuidade do programa de reformas neoliberais, começou a trabalhar em seu favor, por falta de opção melhor (nenhum dos cogitados substitutos de Temer se mostrava especialmente apto para o papel).

Enquanto isto, jornalões concorrentes passaram a mostrar o outro lado do furo d'O Globo:
— o fato de que a gravação ilegal da conversa de Joesley Batista com Temer fora precedida de uma aula a espiões amadores, ministrada por pessoal da Lava-Jato, embora ainda não estivesse decidido se seria ou não aceita a delação premiada de tais criminosos (isto dependeria do resultado da gravação);
Nem os Irmãos Marx dariam um golpe tão bagunçado


  1. — o caráter inconclusivo das intervenções de Temer no diálogo, ficando evidente para qualquer pessoa isenta que a interpretação dada pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot não era a única possível, mas sim a única que servia para incriminar o presidente; 
  2. — as fortes suspeitas de que a gravação havia sido editada; 
  3. — a sofreguidão de Janot, tão ansioso por tocar os procedimentos adiante que nem se preocupou em pedir aos peritos federais que verificassem se a gravação cumpria os requisitos legais para servir como prova; 
  4. — a desatenção de Fachin, não só passando batido pelo fato de que a gravação deixara de ser periciada, como também por sua evidente ilegalidade (não houvera autorização judicial para que Joesley a fizesse) e pelos vários indícios de que Temer fora vítima de uma armadilha judicial; 
  5. — as regalias e privilégios repulsivos que os irmãos bandidos obtiveram com a delação, os maiores até agora concedidos a qualquer réu da Lava-Jato.

O rescaldo da trapalhada

Os conspiradores não conseguiram tanger Temer à renúncia, nem fazer com que perdesse o mandato no julgamento do TSE. Ou seja, não conseguiram nada. Entraram como leões, saíram como cães.


Mas, fazem chegar aos jornalistas a promessa de que insistirão em convulsionar o País, mesmo sabendo que não há mais uma via simples e rápida para a substituição de Temer. Até quando prolongarão a agonia dos brasileiros por messianismo salvacionista ou vaidade desmedida?

O desvio de finalidade cometido por autoridades ligadas à Lava-Jato, ao direcionarem sua atuação para um objetivo flagrantemente político (a derrubada de um presidente) ao invés de se manterem no terreno do combate à corrupção, servirá, em muito, como munição para os políticos encalacrados unidos desfecharem um contra-ataque, movidos pelo instinto de sobrevivência.

Também começam a avolumar-se os questionamentos de arbitrariedades e excessos cometidos ou autorizados por policiais, promotores e procuradores. Reforça-se a suspeita de que se trata de uma devastadora cruzada moralista para destruir o status quo ante, sem clareza quanto ao que deva substituí-lo, assim como era carente de um objetivo maior o tenentismo de outrora (daí já estarem sendo chamados de tenentes togados).
Se a toga fosse maior, daria para esconder também a cara...

E seus abusos, característicos de estados policiais, inspiram comparações com  os jacobinos da Grande Revolução Francesa. É bem capaz de a História repetir-se, com o pântano finalmente criando coragem para reagir contra o terror que Curitiba lhe inspira.

As Organizações Globo conseguiram reeditar um dos seus piores momentos, o escândalo Proconsult, tanto em termos de armação canhestra, quanto de resultados desastrosos. A demonstração de fraqueza que deu deverá custar-lhe caro, em termos de saúde financeira e de influência.

Janot ficou com a credibilidade em frangalhos. Se antes sonhava com voos mais altos, agora terá de dar-se por feliz se conseguir permanecer no cargo atual até setembro, conforme estipulado. Terá ele sensibilidade suficiente para perceber quão exausta está a sociedade brasileira, depois de tantos sobressaltos e de período tão longo de rigores, querendo acima de tudo sair do sufoco, sem mais paciência com relação a quem faz tempestades em copo d'água?

Fachin até agora não desmentiu que tenha mantido uma ligação perigosa com Joesley Batista e dele recebido favores. Então, ao abençoar a delação super-premiada de Joesley, não se declarando impossibilitado de atuar neste caso por envolvimento com a parte, arriscou-se a perder não só a relatoria, como a própria condição de ministro. Por mais que se tente abafar o caso com diatribes corporativistas ao invés de elucidá-lo, os prejudicados por Joesley Batista não deixarão isto acontecer. Fachin tem de torcer muito para que Charles De Gaulle estivesse certo ao dizer que o Brasil não era um país sério.

Finalmente, parte da esquerda, ainda presa à narrativa do golpe, embarcou ingenuamente no derruba Temer!, sem sequer perguntar-se o que estava fazendo quando atendeu ao chamado da Globo. Respondo eu: colocando azeitona na empada alheia, ao aceitar servir como força auxiliar numa disputa de poder entre facções burguesas.

A lição de casa continua por ser feita: 
A esquerda precisa desistir das mordomias palacianas
 e reencontrar o caminho das ruas


— uma profunda autocrítica do papel que tem desempenhado nos últimos anos, culminando na derrota acachapante em que se constituiu o impedimento da Dilma; e
— a retomada da tarefa primordial de organizar o povo para o combate cotidiano ao capitalismo, como etapa necessária no sentido de acumular força para voos maiores.

Para recuperar o protagonismo, precisa ampliar e enrijecer suas fileiras – e muito! A participação destacada nas lutas sociais é bem mais importante para a esquerda neste momento do que vencer quaisquer eleições, inclusive a de presidente da República.

Quanto à derrubada de presidentes, só faz sentido quando se tem um programa alternativo verdadeiramente de esquerda para colocar em prática e as massas organizadas para darem sustentação ao governo popular.

Como os dois requisitos inexistem neste instante, do ponto de vista de uma esquerda consequente, tentar fazê-lo mesmo assim seria, no mínimo, uma leviandade; afora o risco de fortalecer o inimigo, dando-lhe ensejo para trocar um presidente fraco por um bem mais competente, como decerto seria, p. ex., o FHC.




Fonte: Náufrago da Utopia




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