Foro Privilegiado: tudo como dantes no quartel de abrantes.


Mesmo depois de 56 anos de exercício do jornalismo na imprensa escrita, ainda acreditava ingenuamente que o Brasil se tornaria um País verdadeiramente sério quando abolisse esta regalia absolutista intitulada foro privilegiado.

Trata-se de uma garantia de impunidade à qual, todos sabemos, deputados, senadores,  juízes e membros do Ministério Público se agarram com unhas e dentes.

Com o foro privilegiado, imaginava eu, o Brasil (o pais mais corrupto do mundo, segundo a Transparência Internacional) jamais poderia ser sério.

Eis que o patético Parlamento brasileiro aprova o fim do foro privilegiado. Vitória, afinal?

Coisa nenhuma! Mentes mais calejadas e lúcidas recomendaram-me cautela. Para esfriar meu entusiasmo, lembravam a invasão francesa a Portugal.

Não houve resistência e o tempo passava. Quando se perguntava como estava a situação, a resposta sonolenta era: está tudo cono dantes no quartel de Abrantes (onde as forças francesas se davam ao luxo de dormitar).

Constata-se agora que os líderes da classe política fecharam um acordo e retiraram da proposta a previsão de possibilidade de cumprimento de pena aos parlamentares após condenação em segunda instância. Despejaram a seriedade na latrina.

Pior ainda: mesmo sem foro, deputado federal ou senador só poderá se preso se flagrado cometendo crime inafiançável – conforme, aliás, a Constituição já previa...

Mesmo assim, será necessária a autorização de seus pares por meio de votação na Câmara ou no Senado.

Tudo na mesma no quartel de Abrantes.

Apollo Natali
— Não podemos deixar! – clamam os insatisfeitos.

Sem resistência, este assassinato da Pátria mantém o quartel de Abrantes às moscas. Não estou recomendando violência; mas, não podemos deixar.

Interroguei o calejado, lúcido e desalentado jornalista Celso Lungaretti. Recebo suas palavras como uma correição à minha ingenuidade.

— Eu desisti por completo, diz ele, dessas besteirinhas da democracia burguesa. O nosso edifício, temos de construir nas ruas do brasilzão, não na Praça dos Três Poderes.  Mesmo porque lá as fundações estão irremediavelmente podres e nada pára em pé.

E completou:

— As periódicas ondas moralistas acarretam algumas punições e inspiram medidas saneadoras, mas a corrupção acaba sempre voltando revigorada. Ao invés de enxugarmos gelo, deveríamos ir à raiz do problema: o fato de nossa sociedade priorizar, acima de tudo, o êxito individual, mandando às urtigas o bem comum. Com isto, haverá sempre pessoas mais dinâmicas e ousadas à cata de atalhos ilícitos para enriquecerem.

Posso até arriscar mais ingenuidade ao proclamar que a crise do Brasil não é de regime e sim de moral.

Então não tem jeito. O  povo pode se dar ao luxo de dormitar.



Por Apollo Natali



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