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‘Precisamos de 320 votos para votar a reforma da Previdência, e terei’, diz Temer



Ao completar nesta sexta-feira um ano no poder, após a saída temporária de Dilma Rousseff do Planalto quando o Senado abriu o processo de impeachment, Michel Temer faz um balanço positivo de sua gestão, destacando as reformas que vêm sendo implementadas e a melhora na perspectiva econômica.

Em entrevista exclusiva ao GLOBO, o presidente diz não se incomodar com seus 9% de aprovação popular, embora faça questão de ressaltar que ela aumentará, e afirma que a oposição a suas iniciativas no Congresso tem como fundo questões de natureza política, e não de conteúdo. Temer admite que o governo ainda não tem garantidos os 308 votos necessários para aprovar a reforma da Previdência no plenário da Câmara, mas se mostra confiante de que nas próximas semanas chegará ao patamar de 320 votos necessários para ter margem de segurança na votação.

O presidente admite sem tergiversar que, na estratégia de conquista de votos para a Previdência, o governo tem retaliado parlamentares infiéis que votaram contra a reforma trabalhista. E ironiza as exonerações de apadrinhados: “O deputado que não pode votar com o governo se sente desconfortável quando tem indicado”, sentencia.

Temer diz não se sentir fragilizado por ser citado na Lava-Jato, mas reconhece que o envolvimento de seus mais próximos auxiliares não foi algo confortável:
“Mas não atrapalhou o governo, o governo continua”.

LEIA A ENTREVISTA:

Como o senhor vê este um ano de governo?

É interessante como parece que o ponto único e central do governo é a reforma da Previdência. Entretanto, nós fizemos muitas coisas. Tem as diretrizes básicas para este ano de governo. Em primeiro lugar, a ideia do diálogo. Vocês viram que eu estabeleci um diálogo muito profícuo, muito eficaz com o Poder Legislativo. Ao longo do tempo eu percebi que o Legislativo é uma espécie de apêndice do Executivo, eu sentia isto. Mas, eu sempre achei que quem governa é o Executivo com o Legislativo. Se não tiver apoio do Legislativo, não se governa. A primeira conclusão é que o Legislativo não é um apêndice do Executivo. Ele governa junto. Essa cultura política é muito importante. Temos sempre a sensação de que se o presidente da República editou uma norma, acabou. Ninguém pode mais mexer. Aí, sem razão, ficam dizendo houve recuo. Não houve recuo, tratamos com o Poder Legislativo. Esse diálogo foi muito produtivo porque nós aprovamos coisas importantíssimas.

Quais o senhor citaria?

Começa pelo momento em que verificamos que o déficit não era de R$ 96 bilhões, mas era de R$ 170 bilhões. Mandamos o aditivo para o Congresso e aquele foi o primeiro momento que detectei um apoio muito forte do Congresso. Porque essa matéria foi aprovada às 4h30 da manhã, na Câmara e no Senado. Quando vi isto, eu falei: “Vou ter o apoio do Congresso pra valer”. Depois, fomos para o teto dos gastos, que era uma proposta complicada e difícil, reveladora de que não quero chegar aqui apenas para desfrutar da Presidência, mas quero deixar uma espécie de legado. Quando propusemos o teto dos gastos, era cortar na própria carne. Porque você não pode gastar. E acabou sendo aprovado por maioria muito significativa, tanto na Câmara, quanto no Senado. Outro tema importante foi das empresas estatais. Fizemos aprovar, e com isso surge uma espécie de moralização das diretorias das estatais, e aquilo foi muito bem recebido. Tanto que pudemos compor as estatais com esse critério. Depois, vem a história do Ensino Médio. Desde 1997, a primeira vez que fui presidente da Câmara, falava-se em reforma do Ensino Médio. Passou-se um período de 20 anos e não foi feito. O que se falava é que a coisa estava tão complicada, que as pessoas não sabiam falar português, não sabiam multiplicar, dividir etc. Quando o Mendonça Filho (ministro da Educação) trouxe a hipótese de fazer a reforma, nós resolvemos fazer por Medida Provisória. Houve uma rebelião contra a suposta pressa, embora já tivesse sido debatida por 20 anos. E a Medida Provisória tomou por base os elementos dos projetos de lei que estavam no Congresso Nacional. O fato é que, sem embargo das críticas, foi aprovado. Nós lançamos o projeto com praticamente todos os secretários de Educação do país aprovando o projeto.

Tempos depois, longos debates depois, foi aprovada a reforma do Ensino Médio com uma aprovação popular extraordinária. Tanto que não se falou mais no assunto. O teto dos gastos, por exemplo, era chamado de PEC da morte. Porque ia acabar com saúde e educação no país. Aprovada a PEC, nós formatamos o Orçamento deste ano com base na PEC do teto e, diferentemente do que se dizia, acrescentamos R$ 10 bilhões na saúde e R$ 10 milhões na educação. Então, acabou o argumento de oposição à reforma do Ensino Médio.

A maior dificuldade é política ou pelo conteúdo das propostas?

As pessoas não discutem o mérito, fazem oposição política. É legítimo, mas eu preferiria que se discutisse o conteúdo das matérias. Muitas vezes eu percebo as pessoas indagando sobre a reforma trabalhista. O que o trabalhador está perdendo? Está perdendo 13º, as férias, o auxílio-doença? Não, está garantido. Então a pessoa não sabe o que dizer. Ou seja, não é discussão de conteúdo, mas uma manifestação de natureza política.

O senhor citou acertos. Onde o senhor errou?

Olha, eu acho que devo ter errado, mas confesso, vai parecer pretensioso… Acho interessante, eu não consigo detectar onde errei. Devo ter errado, não há a menor dúvida. (Dirige-se aos assessores) Vocês não podem me ajudar se errei em alguma coisa? (Risos). Como tudo foi muito rápido, a própria formação do Ministério foi algo fulminante. E fui tomando providências reformadoras.

Quais?

Eu fui à Constituição e verifiquei que, entre os direitos sociais, está o reconhecimento dos acordos e convenções coletivas de trabalho. Então, essa reforma que mandamos por meio de lei ordinária, é mera regulamentação deste dispositivo constitucional. Porque quando se diz reconhecimento, o que a Constituição está dizendo é eu estou dando prevalência para a vontade das pessoas que vão contratar.

Portanto, para o acordo e convenção coletiva do trabalho. Não há um direito sequer que está sendo violado. Na verdade, a Constituição já disse que o acordo de vontades é uma condição fundamental. É um direito para o trabalhador e também para o empregador. Nossa proposta foi fruto de acordo entre trabalhadores e empregadores. No dia que lançamos, falaram sete ou oito sindicalistas e federações.
Foi uma coisa acordada entre os dois setores. Passou bem na Câmara está no Senado. Como é lei ordinária, creio que será aprovado. É a terceira reforma que estou a registrar. Sobre a reforma da Previdência, nem chamo mais de reforma. Na verdade, é uma atualização da Previdência. De tempos em tempos, é preciso atualizar a Previdência. A primeira vez foi feita entre 1995 e 1996. Depois, em 2003, houve uma nova atualização. Em 2012, novamente, com medidas que a presidente Dilma tomou.

E agora também vai acontecer. Talvez daqui a 10 anos precise de uma nova atualização. É uma transição muito suave. A oposição à reforma não é de conteúdo, é política. Seriam R$ 800 bilhões em 10 anos e agora passa a R$ 600 bilhões. Mas aí vem a pergunta: é melhor reduzir em 600 bilhões ou não fazer nada?

O senhor admite novas mudanças na reforma da Previdência?

Não sei o que vai acontecer no plenário. Sou muito obediente a esta distinção entre os poderes, pode ser que tentem modificar no plenário. Eu não tenho papel de vetos, nem de sanção. A proposta de emendas à Constituição vai ser promulgada pelo Congresso. Não sei o que vai acontecer, mas acho que, do tamanho que ficou, ficou de bom tamanho. O relator ouviu todas as bancadas, depois veio a mim. Eu disse: “Faça os ajustamentos necessários, desde que não retire a espinha dorsal do projeto, que é a fixação de idade, embora com transição”. Isso que foi feito. Ela está de bom tamanho. O ideal é que fique deste tamanho. Foi um tamanho negociado.

O senhor admite que hoje não tem os votos necessários para aprová-la?

Nós não fizemos ainda este levantamento. É claro que temos uma base aliada muito ampla, os partidos vão detectar nome por nome. Este vota, este não vota e, evidentemente, é uma decisão do Congresso, mas eu só pedirei para levar no dia que tiver os votos cravados. Tem que ser uns 320. Agora, se eu me pautar pelo que me disse o Pezão eu já tenho 314.

Em algum momento haverá esses 320 votos?

Eu acho que terei. Eu sinto que já melhorou muito. Todos aqueles que vêm falar comigo dizem que o clima melhorou muito. E agora, o que eles precisam é de umas duas semanas para decantar o novo projeto e divulgar o que trouxe o novo projeto. A aposentadoria se dará aos 65 anos para homens e 62 para mulheres, mas começa com 53 anos, ao longo do tempo é que chegará aos 65, no padrão dos outros países. Os esclarecimentos vão ajudar muito a aprovar o projeto.

Até o final do mês vai dar para pautar no plenário?

Acho que no primeiro turno, talvez dê. Pelo menos contamos com isto.

A reunião com os senadores do PMDB serviu para agilizar a tramitação da reforma trabalhista?

Tinha uma expectativa preocupante e fiquei menos preocupado depois. Não sei o que vão dizer, não tinha tido contato com eles. O tema foi apenas reforma trabalhista, muitos deles dizendo que queriam votar o mais rápido possível. Que era importante. Já conheciam o texto da reforma.

O senhor se convenceu sobre a MP? Acredita que o Senado aprovará sem alterações a trabalhista?

Eu disse que se houver coisas importantes a serem alteradas, acho mais importante aprovar desde já aqui para não voltar para a Câmara e, se for o caso, eu edito uma Medida Provisória depois, desde que haja uma concordância de que aqueles são pontos fundamentais. Eles acolheram muito bem. A tendência é ser concluído com o texto da Câmara. A MP é uma hipótese. Levantaram um ponto da mulher gestante, que pode trabalhar se houver um laudo dizendo que pode trabalhar naquela atividade. Este é um ponto que não me preocupa. Eu edito uma Medida Provisória. Mas não sei se vão levantar outros pontos. Haverá uma MP se for necessário.

O senhor cogita vetar o fim do imposto sindical?

Eu não cogito neste momento vetar. Por uma razão importante: não colocamos isso no nosso projeto, foi inserido lá. Os deputados ficaram até o final para votar esse destaque. Foi uma decisão muito efetiva do Congresso. Minha primeira intenção é não vetar. No momento da sanção ou do veto, verifico quais são as circunstâncias. Se for possível, eu sanciono como foi para o Senado. Claro que é preciso esperar o que o Senado vai fazer.

Existe uma dificuldade dos partidos da base de fechar questão, no próprio PMDB e no PSDB. O senhor acha importante que haja fechamento de questão?

Os partidos vão decidir isso a partir da semana que vem. O fechamento de questão é uma possibilidade partidária, se fechar eu acho que facilita, até facilita muitas vezes, convenhamos, o voto do deputado.

Não incomoda que digam que a base rachou, que está dividida, que o PMDB está contra a reforma?

Você sabe que eu passei 24 anos lá (no Congresso), eu vi tantas vezes isso que eu não me surpreendo. Essas coisas às vezes afunilam no momento, na semana ou na véspera de uma votação. Mas eu volto a dizer, evidente que no caso da Previdência nós vamos contar os votos, os meus líderes vão contar os votos.

O governo fez um levantamento e está exonerando indicados de parlamentares infiéis. Qual o nível de arrumação necessário?

A área política fez esse levantamento, e eu cheguei a conclusão pessoalmente que o deputado que não pode votar com o governo, acho que ele se sente desconfortável quando ele tem indicado no governo, não podendo votar no governo. Então no fundo, se alguém perdeu cargo, acho que fez-se um benefício ao deputado que votou contra o governo, porque ele devia estar extremamente constrangido, extremamente desagradado. Veja bem, eu tenho uma indicação no governo em um órgão importante, e voto permanentemente contra o governo. Eu devo ficar extremamente incomodado, por que eu apoio ou não apoio o governo? Se eu não apoio o governo, não posso participar do governo.

Isso passou a ser uma regra agora?

Uma regra, porque ou você é governo... porque muitas e muitas vezes, e isso a base faz com muita frequência, você manda um projeto, a base vem aqui, e diz: olha presidente, isso aqui não dá, isso aqui tem que modificar. É assim que se governa estando no governo. Não se governa votando contra o governo. Aí você não está no governo, você faz uma declaração pública de que não está no governo.

Após a votação da trabalhista e da Previdência o senhor ainda consegue fazer uma reforma tributária?

Eu tentarei fazer uma simplificação tributária. Toda vez que se fala em reforma tributária, se queima o tema. Mas, se falar simplificação tributária… Muitas vezes falo com empresários que dizem que têm 40 pessoas que só trabalham na organização do pagamento dos tributos. Isso é fruto de uma burocracia muito intensa. Neste particular, estamos combatendo a burocracia no serviço público. A Agricultura, o Ministério do Desenvolvimento, o setor de portos, a questão dos remédios, fizemos muita coisa de desburocratização.

Seriam mudanças via Congresso?

Via Congresso. Aquilo que for factível por medida administrativa, nós faremos, mas a grande maioria vai depender dele. Estou levantando para ver o que pode ser feito nesta simplificação. Talvez unindo tributos, você simplifica o sistema tributário. Mas não quero tratar disto agora, para não misturar as coisas.

Existe possibilidade de criação de novos impostos ou de aumento de alíquotas?

Não. Nós não cogitamos disso. Entramos aqui sob o império da ideia da CPMF. Faz um ano que não se fala mais em CPMF. E não aumentamos nenhum tributo. Não há essa ideia. O que há é a reforma. Com essas reformas, a ideia é que até o final do ano a economia comece a gerar emprego e que a arrecadação aumente. Com isso, não há necessidade de novos tributos.

Havia uma expectativa de que a economia reagiria mais rápido, mas está demorando.

Não era uma expectativa verdadeira. Quando mandamos a PEC do teto, fixamos para 20 anos, revisado apenas 10 anos depois. Porque sabemos que o déficit vai persistir por muito tempo. Quem sabe, daqui a 10 anos, empate a arrecadação com os gastos públicos e daí se faz uma revisão da PEC do teto dos gastos públicos. Se mandássemos uma PEC apenas de um ano, não adiantaria nada. Porque o déficit continuaria. O prazo é para estabelecer a harmonização das contas públicas. Dar tempo para economia ir tomando conta disto. E nós apanhamos o país numa recessão extraordinária.
Quem imaginou que o milagre da mudança de governo significaria o milagre da economia está enganado. Mesmo neste início de ano, o que aconteceu foi, depois de um desemprego enorme, a utilização da capacidade ociosa das empresas. Muitas empresas mantiveram muitos empregados. Tinha uma capacidade ociosa extraordinária. Sem embargo disto, o fato é que, em fevereiro, março, houve abertura de 36 mil vagas. O varejo está vendendo bastante. Além do diálogo, tenho duas diretrizes do governo, que é a responsabilidade fiscal, aliada à responsabilidade social. São coisas coevas, elas vêm juntas. Não se tem responsabilidade social se não tiver a fiscal. O que nós fizemos foi a fiscal com esses dados que descrevi: teto de gastos, a trabalhista, a previdenciária, etc.

E a área social?

E a responsabilidade social, não esquecendo de tudo o que fazemos na área social. Vou exemplificar muito rapidamente. Bolsa Família é um programa necessário. Quando cheguei aqui, não havia revalorização do Bolsa Família e nós revalorizamos em 12,5%. Havia também, no Bolsa Família, muita gente que já não precisava mais Então, foram desligados e, com isto, entraram uns 100 mil, 200 mil, um número elevado de pessoas que estavam na fila para entrar no Bolsa Família. Terceiro, o Bolsa Família tem que ser, ao longo do tempo, um programa que tenda a desaparecer, porque as pessoas naturalmente se inseririam no contexto econômico do estado. O Osmar Terra (ministro Desenvolvimento Social) anda patrocinando um prêmio para as prefeituras que reduzirem, responsavelmente, o número de Bolsa Família, demonstrando que fulano não precisa mais. No caso do Minha Casa Minha Vida, botamos no Orçamento para construir milhares de casas neste ano. Temos dois objetivos: primeiro, proteger os vulneráveis; segundo, a construção civil dá muito emprego. Nesse tópico, nós engendramos o chamado Cartão Reforma. Aqueles que ganham até R$ 2.800 poderão ir à Caixa Econômica e obter uma verba que varia de R$ 5 mil a R$ 9 mil, para fazer uma pequena reforma na sua casa. Naturalmente, casas modestas. Um banheiro, um quarto, uma pintura, que vai atingir, inicialmente, cerca de 100 a 120.000 famílias. E é a fundo perdido, que a pessoa saca o dinheiro e não precisa devolver. Esse é um programa social importantíssimo, falando agora da responsabilidade social. De outro lado, você pagou financiamento estudantil para as pessoas que não podem pagar universidade, mas aumentamos em milhares de vagas nesse ano, do FIES.

E esses eram programas que estavam repletos de fraudes. Eles hoje estão limpos?

As fraudes hoje foram eliminadas, como por exemplo no auxílio-doença. Há praticamente dois anos não se fazia revisão do auxílio-doença, e ele é assim: você tem uma pneumonia, vai buscar proteção legal, recebe o auxílio doença e três, quatro meses depois está curado. Mas há dois anos não se fazia revisão, começou a se fazer a revisão e hoje, em cerca de 15% a 20% que já foi feito, já se economizou valor equivalente a R$ 1,3 bilhão mais ou menos, a significar que quando atingir 100% de revisão, vai a R$ 7 bilhões, R$ 8 bilhões. A aposentadoria por invalidez também está sendo objeto de revisão. Como também na área da cultura, o Roberto Freire me disse que está fazendo auditoria lá, porque há milhares e milhares de contratos da Lei Rouanet que não se prestaram contas, e está se fazendo uma revisão em tudo isso. Ou seja, estamos colocando o Brasil nos trilhos nessas questões.

Ainda no tópico social, a questão da liberação do fundo de garantia, convenhamos que foi um projeto de muito êxito. Você tinha as contas inativas rendendo lá para o poder público, enquanto muitas famílias estão endividadas. Hoje já vamos a R$ 30 bilhões sacados nesse período. Vocês viram que o varejo melhorou, e boa parte melhorou por causa desse saque das contas do fundo de garantia. E vai a R$ 42 bilhões, R$ 43 bilhões porque haverá ainda mais dois períodos de saques.

O senhor elencou uma série de conquistas do seu governo. Qual foi o pior momento desse primeiro ano?

Os piores momentos são momentos em que você vê um protesto muito acentuado e, convenhamos, sem razão. Esses são momentos desagradáveis, mas perfeitamente absorvíveis, porque a democracia é isso. Você tem na democracia a possibilidade do protesto, e protesto se faz, apenas muitas e muitas vezes o protesto toma um rumo agressivo demais.

Algum dia específico incomodou mais?

Perto de casa incomodava por causa dos vizinhos. Eu acho que é uma coisa desagradável, esse último momento em que houver e que chamaram de greve, porque não foi uma greve, foi uma atitude que paralisou boa parte do país. Mas o que era desagradável era a história de que se anunciava que queriam invadir a minha casa. Uma coisa desagradável, esse foi o momento desagradável, porque é uma coisa quase violando da sua intimidade. De resto é protegido pela Constituição, mas as pessoas não dão a menor importância para isso, nem leem a Constituição. Esses são momentos desagradáveis, mas que não me incomoda, não. Isso até me anima, me vitaliza, porque eu digo: 'eu preciso passar esse um ano e pouco deixando uma marca registrada, tanto na área social quanto na área fiscal', e acho que nós estamos conseguindo fazer. Quando se fala que a Petrobras valorizou, a Eletrobras valorizou, o Banco do Brasil valorizou, isso é fruto do quê? Fruto da confiança no país das medidas que estão sendo tomadas, sem, eu reitero sempre, agressão a nenhum direito das pessoas. No tocante à Previdência social, por exemplo, alardeia-se muito e eu vejo muita gente dizendo: minha empregada diz que o pai dela diz que vão cassar a aposentadoria dele. Quer dizer, a campanha é nesse tom, né, 'eu perdi a aposentadoria', e por mais que você diga que quem adquiriu direito, adquiriu direito... Aliás, mesmo quem não se aposentou e já completou tempo também tem direito.

Então, o que está faltando para as pessoas notarem?

Falta futuro. Ou seja, daqui a breve tempo as pessoas vão começar a perceber: Previdência não é bicho papão, pelo contrário. Se aprovada for, como foi a trabalhista, as pessoas vão verificar que não causa mal a ninguém. Pelo contrário, equilibra o país. Por isso que eu digo, falta futuro, falta chegar um pouco mais adiante, aí as pessoas vão ter a compreensão daquilo que estamos fazendo hoje. Eu poderia perfeitamente tomar medidas populistas, aquelas que você pratica um ato hoje, é aplaudido hoje, mas causa um desastre amanhã, que foi o que aconteceu ao longo do tempo. As medidas que eu toco são medidas populares, aquelas que demandam reconhecimento, e o reconhecimento vem ao longo do tempo.

Acha que nesse um ano e meio que ainda tem de mandato o senhor vai conseguir isso?
Não tenho dúvida disso.

O senhor acha que o país hoje está melhor?

Acho que tem otimismo. Não estou dizendo que o Brasil está melhor, estou dizendo que o Brasil está melhorando. Porque quando você fala em otimismo, que o varejo está vendendo mais, que há uma ou outra hipótese de emprego, quando você vai aprovando as reformas denunciadoras de que em breve tempo o desemprego poderá diminuir, eu digo: 'o Brasil está melhorando'. O que eu acho que há hoje é uma disputa muito grande entre brasileiros, o que não era muito comum no nosso país. Isso não é bom, essa coisa da agressividade que permeia a sociedade não é uma coisa boa, aí eu tenho uma objeção.

Mas a falta de apoio popular incomoda o senhor?

Não, não incomoda. Claro, se você disser: 'gostaria de ter 80% de aprovação?' Eu gostaria, mas a vida é difícil, não é? O primeiro ministro da Espanha esteve aqui e disse publicamente que a Espanha passou por 5 anos de recessão, e nesses 5 anos teve que congelar salários de servidores públicos, congelar pensões, e houve duas ou três greves gerais lá, e ele levou adiante, fez as reformas, e a Espanha começou a crescer novamente fruto das reformas. Mas evidentemente que a impopularidade dos governantes naquela época era grande.

Mas no fim de 2015 o senhor disse que a presidente Dilma não aguentaria 3 anos e meio no governo com popularidade de 7%. Há condição de o senhor se manter um ano e meio?

É que o governo está realizando coisas que estão sendo reconhecidas. Você pode não ter a grande popularidade, mas você tem um reconhecimento. Você não resiste quando não tem reconhecimento, mas quem tem, como eu tenho, um apoio fundamental do Congresso para matérias dificílimas, significa que nós vamos poder levar o governo adiante. É uma questão de tempo. Sem dúvida alguma vai reverter.

Preocupa o processo de cassação da chapa no TSE?

Não posso adiantar nada. Primeiro porque respeitarei a decisão do Judiciário, segundo porque não posso dar palpite sobre isso, mas terceiro porque não sei se pode ter improcedência, pode ter eventualmente a separação de chapas, pode ter também recursos que se alonguem para a apreciação. Há vários fatores, mas não é uma coisa que me preocupe. Preocupa porque sempre dizem assim: ‘o Temer está conseguindo fazer a reforma tal, mas tem o TSE’... Aquela ameaça, né, então o melhor é que julgue logo.

O senhor já disse que recorrerá inclusive ao Supremo. Acha que há tempo de os recursos serem julgados antes das eleições de 2018?

É difícil dizer isso, não sei qual é o ritmo que cada tribunal dará a esse caso.

Mas há risco de algum movimento no TSE contaminar a situação que o senhor tem hoje no Congresso?

Não, zero. O Brasil precisa entender de uma vez que o poder é um só, o poder do povo. E tem três órgãos que exercem o poder em nome do povo, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Vamos deixar cada um trabalhar por conta própria. Eu estou trabalhando, o governo não para por causa disso, o Legislativo não para e o Judiciário não para. Uma coisa não vai interferir na outra.

Não é um contrassenso que o mandato do beneficiário dessa eleição acabe continuando mesmo que você tenha uma condenação?

Eu não vou falar sobre isso, porque eu estaria interferindo em uma decisão do Judiciário. Eu poderia fazer uma larga argumentação, uma longa exposição e até convenceria vocês juridicamente da tese, mas não posso fazer isso, hoje eu sou presidente da República.

Mas se não fosse o senhor no cargo o senhor teria a mesma posição?

Hoje sou eu esta pessoa, não tem jeito.

No início do mandato o senhor falava que estava tendo um trabalho muito maior do que imaginava.

O senhor diria que esse ano passou rápido?

Rápido, rápido, impressionante. Quando me dou conta que estou aqui há um ano eu pergunto: 'será?'.

Eu só verifico que eu tenho um ano aqui quando eu vejo as medidas que nós tomamos, quando eu vejo as 80, 90 medidas que foram tomadas aqui. Agora, na minha cabeça um ano passou rapidamente.

Fica um gostinho de quero mais?

Eu quero mais, mais um ano e sete meses.

O senhor descarta concorrer em 2018?

Descarto. Se eu conseguir, como graças a Deus venho conseguindo, fazer as reformas necessárias para o país, produzir efeitos benéficos no combate ao desemprego, conseguir acolher os vulneráveis, porque o nosso objetivo básico é produzir um trabalho entre o capital e o trabalho que possa acolher os vulneráveis, os mais pobres. Se eu conseguir isso eu me dou por felicíssimo.

E o senhor vê hoje algum pré-candidato que poderia apoiar em 2018?

Não, nem penso nisso, está muito longe ainda.

Mas um ano passa rápido...

Passa rápido, mas primeiro precisa passar, não é?

Como o senhor avalia esse cenário das pesquisas em que Lula lidera com ampla margem, o deputado Jair Bolsonaro figura na segunda posição, e nomes como João Doria e Luciano Huck estão sendo lançados?

A única conclusão que eu tiro é que é um quadro novo no país, como costuma acontecer de tempos em tempos. Acho que isso não deve nos surpreender. De qualquer maneira é muito cedo para qualquer consideração. O João Dória e o Luciano Huck são nomes empreendedores, gente que empreendeu muito longo da vida. Mas considerações de natureza política eu não saberia, até porque eu estaria interferindo em outro partido.

O senhor acha que a sua tendência é apoiar um candidato do PMDB ou tem uma chance grande de apoiar alguém do PSDB?

Primeiro preciso verificar qual vai ser o caminho do PMDB. Eu acho que pode aparecer um nome do PMDB, não é improvável, mas o futuro vai dizer. Quando o PMDB decidir essa questão política evidentemente vou acompanhar o PMDB.

O que a Lava-Jato trouxe à tona deixou claro que o modelo atual se esgotou. O que vem por aí?

Acho que uma reforma política. Essa é mais uma tarefa do Congresso, mas o que eu acho que acontece é que hoje a questão de uma reformulação política no país amadureceu, e a lei nova sempre aparece depois que os fatos se repetem e amadurecem. Eu sinto um desejo muito grande do Congresso de fazer uma reforma política. Eu acho que ela virá, e se eu puder colaborar eu colaboro.

O nome do senhor foi citado em algumas delações da Lava-jato e a PGR diz que não abre investigação pelo impedimento constitucional. O senhor acha que suas explicações foram convincentes? Essa falta de investigação não o fragiliza?

Até hoje não fragilizou. Em primeiro lugar, porque a PGR nada mais fez do que cumprir um preceito constitucional. Em segundo lugar é que dei várias explicações e acho que convenci, porque os dados, as falas sobre a esse assunto são muito frágeis, falam por ouvir dizer, nada concreto, nada papável. Eu dei as explicações, evidentemente estou convencido delas, e acho que pude convencer. Evidentemente que se o sujeito é oposição a você, não se convence, mas eu me dou por satisfeito pelas explicações que dei.

O senhor faz sempre questão de dizer que não demitiu os ministros que acabaram se afastando. Esses momentos de ver amigos seus de longo período, como Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e José Yunes, deixando o governo foi incômodo?

Porque não demiti mesmo, eles pediram demissão. Foi por uma razão fática verdadeira, eles que pediram demissão. Eles estão se explicando, se explicaram, se justificaram. Se disser que é confortável para mim, evidentemente não é, eu estaria falseando. Mas não atrapalhou o governo, o governo continua. Com digo sempre, o governo não vai paralisar porque A falou de B, isso não paralisa o governo.

O senhor acha que o fim das doações empresariais mudam a relação entre políticos e empresários no
Brasil?

Não há dúvida. É um avanço Aliás, eu sempre sustentei que, quando havia doações de pessoas jurídicas, que ela podia fazer doação desde que optasse por uma candidatura. Porque veja, se você é candidato e eu auxilio você com dinheiro é porque eu tenho a opção da cidadania. Eu acho que a empresa tem que pensar da mesma maneira. Mas o que acontecia era o mau hábito de colaborar com todo mundo. Se você tivesse uma regra de que uma empresa opta por um candidato, isso é legítimo. O que contaminou foi exatamente a não-adoção desse critério. Acho que sob esse ângulo houve uma evolução.

A situação dos ministros citados continua a mesma que o senhor tinha anunciado?

Linha de corte.

Fora Lava-Jato, alguma previsão de mudança ministerial dependendo da fidelidade das bancadas nas votações?

Não. Olha, estou muito bem de ministério: na área econômica, na área política, na área produtiva... Nós temos um bom ministério, com muita franqueza, podem examinar ministro por ministro.

Na Justiça também?

Igualmente.

Porque há notícias de que o ministro poderia sair.

Se você acreditar em tudo. Não quero dizer que a imprensa diz, é o que os outros dizem para a imprensa. Se saiu em algum lugar é porque alguém disse. Mas eu não penso em demitir ninguém.

O senhor neste ano deu algumas declarações polêmicas em relação ao papel das mulheres. Qual o papel delas e o que o senhor entende como feminismo?

Eu acho uma injustiça extraordinária. Vou dizer a você do meu histórico. Fui o primeiro a criar uma delegacia de defesa da mulher, em 1985. Foi a primeira delegacia da mulher do mundo, um fato tão extraordinário que ganhou até uma página de um jornal americano. Criei quando presidente da Câmara a primeira procuradoria parlamentar da mulher, para ter uma representação da mulher. Ainda presidente da Câmara eu coloquei uma deputada no colégio de líderes, porque nem sempre havia alguma no colégio de líderes. Mais recentemente agora fiz, homenageando o dia das mães que é dia 14, um decreto de indulto das mães e avós que até dia 14 tenham sido condenadas a oito anos de prisão, com cumprimento de 1/6 da pena e que tenham filhos ou netos menores de 12 anos. Porque muitas avós cuidam de netos com menos de 12 anos, e é incrível o número de avós presos, porque as avós sãos mulheres de 40, 45 anos, muitas vezes. Então pratiquei um decreto de indulto para as mulheres nessas condições.

E o discurso?

As pessoas falam isso porque no Dia Internacional da Mulher eu fiz um discurso de improviso e disse num trecho que na verdade, quando a sociedade é bem formada isso se deve muito à mulher porque a mulher tem mais contato com o filho. Essa é uma realidade minha, pelo menos me pautei pela minha mãe. Se com os outros não é assim... Quando a sociedade é bem formada, eu disse, a mulher muitas vezes tem uma presença muito significativa porque significa que ela formou bem os filhos, bom, a partir daí houve um protesto. Do supermercado foi outra coisa que eu disse, porque nunca vejo no noticiário de televisão que indague de um homem qual o preço do tomate ou do feijão, sempre vejo mulheres. Eu disse, e essa frase não foi levada, "mas hoje a mulher ocupa posições relevantíssimas nas empresas como executivas, etc, está aqui veja o número de deputadas e senadoras que estão aqui ocupando posição relevantíssima na política brasileira". Não sei por que pegaram aquele negocinho do super mercado.





O Globo



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