'Política não pode paralisar a economia'

Prefeito de SP diz que áudio ‘compromete’ Temer, apesar de não ser conclusivo, e que País deve manter reformas



Entrevista com Prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB)
Um dia após o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar que o presidente Michel Temer seja investigado pelos crimes de corrupção, participação em organização criminosa e tentativa de obstrução da Justiça, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou ao Estado anteontem que a situação de Temer é “comprometedora”, mas que a economia não pode ser contaminada pela crise política.

Para o tucano, o áudio divulgado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) – no qual o peemedebista conversa com o empresário Joesley Batista, dono da JBS, sobre a suposta compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) –, é inconclusivo, mas compromete em função do tipo de diálogo ocorrido dentro do Palácio do Jaburu, tarde da noite.

Independentemente da solução a ser tomada, Doria apela ao Congresso para que separe a política da econômica a fim de as reformas não serem paralisadas. Sobre a situação do senador Aécio Neves, afastado das suas funções parlamentares e também da presidência do PSDB, o prefeito diz que ele não pode ser comparado a Lula, mas deve ser investigado.

Qual é o diagnóstico que o senhor faz desse momento?

Essa situação difícil que o Brasil passa é também um aprendizado e a primeira grande lição é: separe a economia da política. E diria também que temos de ter a capacidade de compreender que as duas reformas (trabalhista e previdenciária) que estão no Congresso também devem ser entendidas separadamente. Elas não deveriam ser contaminadas por esse ambiente político desfavorável, fruto dessa delação. Elas deveriam seguir o seu curso em nome daqueles brasileiros que integram a frente dos 14 milhões de desempregados. Não se pode paralisar a economia nem as reformas porque o maior prejuízo não será da classe política, mas dos desfavorecidos, dos mais pobres.

Como fazer essa separação?

É um apelo ao bom senso do Congresso, que precisa ter senioridade para tratar separadamente o tema político, que é grave, e o tema da economia, que também é grave. Não se pode misturar ambos no mesmo campo, porque isso vai provocar um enorme prejuízo ao País. Reformas e economia de um lado; a questão política, de outro.

Não se separou política de economia durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Por que se faria isso agora?

Pela gravidade. Depois de 13 anos de mazelas dos governos Lula e Dilma, o que já estava ruim, difícil de recuperar, pode chegar a um patamar de quase inviabilidade. Não dá para imaginar que resolver uma questão de ordem política possa colocar o País todo em xeque, não pode. Resolva, dê o juízo, a penalidade eventual aos que precisam, mas não coloque o Brasil como um todo dentro desse contexto.

O que o senhor defende?

Investigar e com a mesma eficiência e determinação que as outras investigações. Ninguém pode ter privilégios, ninguém, nem presidente da República, ministros, senadores, deputados nem sequer juízes. Todos que, por alguma circunstância, mereçam ser investigados deverão ser, sempre resguardando o direito de ampla defesa. Mas não estabelecer privilégios nem vantagens.

O senhor ouviu o áudio. Ele é conclusivo?

Ele é inconclusivo e também não é um áudio bom, adequado. Não é conclusivo do ponto de vista de dar culpa ao presidente, de estimular uma ação coercitiva à Justiça ou de outra ordem. Mas compromete do ponto de vista do tipo de diálogo que ali se trava. Mas ele não é conclusivo do ponto de vista de qualificar a culpa do presidente e por esse áudio pedir o seu impedimento.

O comprometimento que o senhor cita diz respeito ao fato de o presidente ter recebido um empresário investigado, às 22h40, em sua residência oficial. É isso?

Isso, e com esse nível de diálogo. Acho que se o presidente pudesse voltar atrás, voltaria.

Diante de um cenário de renúncia ou afastamento, qual deve ser o posicionamento da sociedade, das autoridades e mesmo a sua, se for chamado a colaborar?

Aí, é aguardar as decisões. Precipitar avaliações antes de qualquer decisão não é um bom gesto.

O PSDB deve sair da base? Deve apoiar o impeachment?

O partido deve aguardar e não tomar decisões no calor do momento, mas no bom senso e no equilíbrio. A pior decisão, em qualquer circunstância, seja na política ou na vida privada, é aquela que você toma no ímpeto. Dessa, normalmente, você se arrepende.

O senhor aparece preservado desse turbilhão que afeta a classe política. Qual é a sensação de assistir a tudo isso de fora?

Eu sou brasileiro, antes de tudo, amo o meu País e quero o bem do Brasil. Tudo o que eu puder fazer para ajudar e cooperar, vou fazer pelo Brasil, e de forma equilibrada. Eleição é em 2018. Eleição você pode ter mais contundência, faz parte do jogo, um debate mais animado, mais caloroso. Mas, quando você tem que debater o País, e ainda distante da eleição, equilíbrio, serenidade.

O senhor sempre procurou citar diferenças entre o PT e o PSDB. Hoje, após o escândalo envolvendo Aécio Neves, eles estão no mesmo balaio?

Não, não se pode julgar o PSDB como um todo, face circunstâncias que envolvem algumas pessoas do PSDB.

Não é qualquer pessoa do PSDB, é presidente do partido.

Não é qualquer pessoa, logicamente. Mas, com todo respeito ao senador Aécio Neves, o PSDB não é Aécio Neves. O conjunto de valores históricos e de biografias do PSDB é mais amplo do que o Aécio Neves, repito, com todo o respeito que ele possa merecer pelos cargos que ocupou, pelo o que já fez no passado.

Ele merece mais respeito do que o Lula?

Estamos falando do PSDB, não estamos falando do Lula.

Mas o senhor sempre fala dele. O Aécio é diferente do Lula?

Lógico que é. Não se compara Lula com Aécio, são trajetórias distintas. O PSDB tem uma história bem diferente do PT, ainda que nesta circunstância você tenha algo que merece análise da Justiça. Mas tentar igualar o PSDB ao PT é negar a história. São partidos com comportamento distintos. O PSDB nunca fugiu e, ao meu ver, não deve fugir de nenhum julgamento nem criar obstáculos à Justiça para as investigações. E ter grandeza, dimensão para respeitar a história de nomes como Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro, Mario Covas, Geraldo Alckmin e tantos outros bons valores.

Está confortável no PSDB?

Estou. Obviamente que tenho visões críticas, sempre tive. Exemplo disso: sempre me posicionei contra a reeleição, apesar de meu partido apoiar a reeleição. Tenho posição distinta, mas, exatamente pelos valores democráticos do PSDB, eu tenho a possibilidade de ter discordâncias e mesmo assim seguir militando no PSDB. Eu tenho uma visão mais de gestor e menos de político. A visão do partido é mais de política e menos de gestão, haja visto que no recente programa partidário não fui convidado a participar e não me queixei.

Não está se queixando agora?

Me surpreendi, evidentemente, mas não externei queixa alguma. Foi uma decisão do partido valorizar mais a política e menos a gestão. Eu entendo de outra forma: valorizar mais a gestão na convivência com a política.

Se essa crise gerar um clamor para se apresentar como uma alternativa, o senhor estaria disposto a aceitar?

Tudo a seu tempo. A sabedoria não é antecipar processos, mas participar dos processos.

De prévias, por exemplo?

Circunstancialmente. Sempre defendi isso. As prévias são saudáveis, funcionam com um grande laboratório democrático e o PSDB já deu várias vezes demonstrações nesse sentido, como na minha própria eleição. Elas servem para estarmos em sintonia com a população, com o eleitor e não com os que comandam o partido. Essa é a minha visão, talvez não seja a visão dos que comandam o partido, mas, democraticamente, posso compartilhar.

O que o senhor achou da indicação do senador Tasso Jereissati para comandar o PSDB agora?

Tasso Jereissati é um político experiente e foi um gestor também, além de um bom governador do Ceará. Vem do setor privado, onde também obteve sucesso. Tasso tem uma índole privada atuando no setor público. É um bom nome, uma indicação sensata neste momento.

O senhor acha que é a hora de São Paulo liderar o PSDB?

Eu não sou dirigente do partido, sou um integrante e quero continuar a ser. Por isso, vou continuar defendendo o meu discurso e a minha prática. Eu sou um gestor, estou na política, não sou político. Agora é hora do Brasil, não é hora de São Paulo.





Alberto Bombig e Adriana Ferraz | O Estado de S. Paulo

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